sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Howling for you

Ontem eu estive no Museu Nacional de Belas Artes, visitando tanto a exposição permanente quanto as temporárias. Adorei a exposição, vi alguns trabalhos lindíssimos, outros não convencionalmente bonitos mas que me deixaram fascinada e outros que... Pois é.

Como este post está marcado como "diatribe", claro que é desses outros que eu vou falar, né? Mas no fim vou falar também de "Howling for you", o quadro que deu nome a este post porque, de toda a exposição (ou melhor, de todas as exposições que estavam no museu ontem), esse é o que me causou mais impacto. Mas vamos lá: primeiro os outros. 

A obra sem nome

Pra mim, obra de arte tem que ter nome. Não importa se é uma cena de batalha ou um monte de losangos azuis sobre um fundo vermelho, um busto de mármore ou várias caixas de papelão uma dentro da outra. No que o artista estava pensando quando criou aquilo? No objeto que ele estava representando, na situação retratada, em um sentimento? Não tem problema a obra se chamar "Laringite" e ser uma gaiola de ferro com um monte de margaridas de plástico dentro: eu vou botar fé no artista e viajar na dele, encontrando todo tipo de simbolismo ali. Pode também ser um quadro de uma cadeira azul e se chamar "Cadeira Azul". Era nisso que o artista estava pensando ao criar a obra, ué: ele estava com vontade de pintar uma cadeira azul. Tudo bem. Mas, quando nem o artista se dá ao trabalho de dar nome à sua obra e lhe dá nomes como "pintura a óleo", "desenho", ou, como no exemplo abaixo, "composição abstrata", sinto muito, mas eu sou forçada a dar razão àquele povo que diz que o cara fechou os olhos, jogou uns vidros de tinta na direção da tela e onde cair, caiu. Claro, eu posso olhar pro seu quadro abstrato e ver ali um simbolismo para laringite. Mas, vem cá, eu vou ter que fazer todo o trabalho por você? Não, né? Se não tem nome, pra mim não é arte: é decoração. Pronto, falei.

"Composição Abstrata" (Roberto Morvan)
Sério? Isso é uma pintura abstrata? Nossa, eu nem desconfiava...

A obra que não tem nada

E ai, como mesmo entre as pessoas que eu não estou levando a sério sempre tem um que se destaca, vem a artista e dá à sua obra o nome do material do qual ela é feito: mármore preto. Amiga, isso aí já era mármore preto antes de você colocar a mão. Já era mármore preto antes até de você nascer. Pra chamar de mármore preto você não precisava ter tido trabalho nenhum, era só passar em uma jazida, apontar e dizer: "mármore preto".

"Mármore Preto" (Zélia Salgado)

O caso de uso que só tem o fluxo básico

Esse eu vou ter que explicar pra quem não é da área de TI. Quem já trabalha com TI pode pular essa parte: a gente encontra vocês lá na frente daqui a pouco.

O documento de especificação de caso de uso é um documento que descreve, para quem vai desenvolver um sistema, como vai ser a interação do usuário com a aplicação. Por exemplo, o software que controla o caixa eletrônico do seu banco tem um caso de uso "Realizar saque" que é mais ou menos assim:
  1. O cliente seleciona a opção "Saque".
  2. O sistema pergunta qual é a quantia desejada.
  3. O cliente informa a quantia desejada.
  4. O sistema solicita a senha do cliente.
  5. O cliente informa a senha.
  6. O sistema disponibiliza para retirada as notas totalizando a quantia solicitada.
  7. O cliente retira as notas.
  8. O sistema debita o valor solicitado da conta do cliente.
  9. Fim do caso de uso.

Só que este é só o fluxo básico do caso de uso. É o fluxo mais fácil de escrever, porque é o mais óbvio. Mas e se o cliente não tiver saldo suficiente para sacar a quantia que ele pediu? E se ele informar a senha errada? E se o caixa eletrônico não tiver notas suficientes? E se a quantia solicitada exceder o valor limite de saque naquele horário? Essas e outras situações são contempladas pelos fluxos alternativos e pelos fluxos de exceção do caso de uso. E, assim como nos projetos de desenvolvimento e manutenção de software às vezes tem aquela besta-fera dos infernos que acha que só precisa levantar / documentar / desenvolver / testar o fluxo básico, temos artistas como o prezado Manuel de Araújo Porto Alegre que dá ao quadro abaixo o singelo nome de "Uma Grota".

"Uma Grota" (Manuel de Araújo Porto Alegre"

Tá, Manuel, que é uma grota todo mundo já notou. O que o povo quer saber é quem são essas pessoas que não têm a menor cara de espeleologistas e o que elas estão fazendo aqui. Porque as duas moças e a criança estão encolhidas atrás do homem, se abraçando com jeito amedrontado? O que são essas figuras de pedra que o homem está iluminando com a tocha enquanto estende um braço protetor à frente do resto do grupo? São esculturas feitas por algum artista misterioso? São pessoas de verdade que viraram pedra? O que está acontecendo aqui, Manuel, conta pra gente!

Obs. Se estiver difícil de ver esses detalhes todos que eu estou falando, é só clicar na imagem para ver uma versão maior dela.

A obra que deu título a este post

Finalmente, a obra que deu título a este post, não porque ela se enquadre em alguma das categorias acima ou por qualquer outra restrição minha ao seu título. "Howling for you" ("Uivando por você"), da artista Renata de Bonis ganhou menção honrosa neste blog porque sua inclusão na exposição foi, na minha opinião, um toque de gênio. Não dá pra descrever a sensação de, em meio a quadros de Di Cavalcanti e versos de Vinicius de Moraes, perceber de relance, pelo canto do olho, esse quadro bem ali ao seu lado. Sabe aquele "double take" que se diz em inglês, quando você passa os olhos por alguma coisa sem realmente registrar o que está vendo, daí depois de alguns segundo a ficha cai ("Opa, peraí!") e você vira e olha de novo, agora, sim, enxergando? Foi assim comigo. Fiquei um bom tempo parada diante desse quadro, mesmerizada. Assim como em "Uma grota", o título deste quadro não responde a perguntas como quem é essa mulher, de onde ela está vindo e pra onde ela está indo. Mas o título "Howling for you" levanta mil possibilidades e me dá arrepios. Alguma coisa deu muito errado pra alguém e eu tenho quase certeza que não foi pra ela.

"Howling for you" (Renata de Bonis)




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