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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Gerente, Não Faça Isso: Valorizando a Equipe

Hoje eu vou apresentar mais um item da lista de coisas que um gerente não deve nunca, nunca, NUNCA fazer. Há alguns anos atrás, eu trabalhava como analista de requisitos em um projeto grande, com um gerente de projeto que era ruim em muitas coisas, mas era decididamente péssimo no quesito comunicação. Péssimo a ponto de aquilo ser uma piada frequente entre os membros da equipe: mais de uma vez eu ouvi gente comentando que ele deveria ensaiar na frente do espelho antes de se dirigir à equipe, na esperança de que, talvez, ao escutar a si mesmo, ele conseguisse perceber quão mal soava o que ele estava pretendendo dizer.

"Nossa, até eu fiquei com raiva de mim agora."
© Vadimgozhda | Dreamstime.com - Morning Photo

No episódio em questão, ele tinha reunido a equipe toda na sala de reuniões para fazer uma série de comunicados a respeito do projeto, que estava em crise: super atrasado, paciência do cliente chegando ao limite, equipe desmotivada etc.

Um dos tópicos abordados foi uma queixa que tanto o líder de desenvolvimento quanto o líder de testes já vinham fazendo há algum tempo: a incompatibilidade entre o volume de trabalho e o tamanho da equipe. O gerente explicou que, por vários motivos, aquele era um momento delicado para fazer contratações, mas que ele tinha conseguido autorização para contratar mais um profissional. Considerando que tanto a equipe de desenvolvimento quanto a equipe de testes estavam reivindicando mais profissionais, ele tinha precisado fazer uma escolha e tinha decidido dar prioridade, naquele momento, à contratação de um novo desenvolvedor.

Até aí, nada de mais. Um projeto não tem orçamento infinito e muitas vezes o gerente precisa fazer escolhas difíceis e definir prioridades. Concordando ou não com a decisão, todo mundo sabe que isso faz parte do jogo e se a história terminasse aí provavelmente os analistas de teste teriam ficado aborrecidos, mas superado.

Mas claro que a história não parou aí. O gerente quis dar uma satisfação à equipe e explicar seus motivos para contratar um analista de desenvolvimento em vez de um analista de teste, o que seria uma ótima ideia... se os seus motivos não fossem "teste a gente pode dar pra qualquer pessoa fazer".

"Não sei o que aconteceu: eu estava aqui me preparando para a reunião com a equipe, quando, do nada, o espelho explodiu."
© Surchy | Dreamstime.com - Shattered Mirror Photo

Veja bem, eu até concordo que o trabalho mais crítico de um analista de teste não é a execução do teste propriamente dito e sim o planejamento e elaboração dos cenários e casos de teste. Com casos de teste bem escritos e detalhados, não seria necessariamente uma má ideia adotar a solução temporária de pedir para outro analista fazer alguns testes funcionais, desafogando um pouco a equipe de testes. Mas está dando pra perceber a diferença entre a maneira como eu coloquei a coisa e a maneira do gerente do projeto?

Para quem não é da área de TI, deixa eu explicar algumas coisas. Um teste funcional é um teste feito do ponto de vista do usuário: ele é feito navegando-se pelas telas no sistema e executando todas as funcionalidades em todos os cenários possíveis, para ver se o comportamento do sistema corresponde ao esperado. Para isso, os analistas de teste elaboram com antecedência casos de teste baseados principalmente na documentação elaborada pelos analistas de requisitos durante a fase inicial do projeto. A elaboração de um caso de teste é um trabalho extremamente minucioso porque exige do analista de teste não apenas entender como o sistema deve funcionar, mas também antecipar todas as coisas que podem dar errado, fazendo com que ele não funcione da forma desejada. Só para dar um exemplo muito, mas muito simplificado, até porque teste não é a minha especialidade, se o analista de requisitos especifica, de acordo com a solicitação do usuário, que para cadastrar a nota de um aluno no sistema da universidade é necessário informar a matrícula do aluno, o código da disciplina, a identificação da prova (P1, P2 ou prova final) e a nota propriamente dita, o analista de testes tem que elaborar casos de teste para testar o comportamento do sistema não apenas se o usuário preencher todos os campos direitinho, mas também se ele informar uma matrícula que não existe, ou o código de uma disciplina na qual o aluno não está inscrito, ou uma nota abaixo de zero, ou uma nota acima de dez, ou uma nota com três casas decimais se a regra da universidade é arredondar para uma casa decimal só, ou letras em campos que só deveriam receber números, e muito mais. Ele precisa analisar cada regra de negócio e e todas as maneiras das quais ela pode dar errado. E isso só pensando nos testes funcionais: testes de performance, de estresse e de integração são só alguns dos outros tipos de testes existentes e necessários (não estou dizendo que todo mundo faça, mas isso já é outra história: não é novidade pra ninguém que existe muito projeto mal-feito por aí, né?).

Ou seja, não é, ao contrário do que disse o gerente do projeto, uma coisa que qualquer um possa fazer. Mas, tudo bem, vamos supor que você, gerente, ache que isso tudo é um monte de bobagem e que a tia do café poderia perfeitamente substituir qualquer um dos analistas de teste do seu projeto: será que você não pode pelo menos não dizer isso na cara deles? Eles provavelmente já desconfiam, mas isso não é motivo para anunciar em uma sala de reunião cheia de gente o seu desprezo pela habilidade e conhecimento que eles passaram anos adquirindo.

Gerente, não faça isso. Vai por mim: essa é uma daquelas situações em que é preferível você mentir.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Bingo Corporativo

Ainda estou trabalhando nas regras, mas, basicamente, as regras de Bingo Corporativo são as seguintes:

  1. Chame outros amiguinhos para jogar.
  2. Cada vez que uma das situações abaixo ocorrer na sua empresa, marque os pontos indicados.
  3. Quem chegar a 10 pontos primeiro é o vencedor.
  4. Se todos trabalharem na mesma empresa, cada um marca pontos no seu setor.
  5. Se todos trabalharem no mesmo setor, vira jogo colaborativo: ao chegar em 10 pontos, todos ganham e vão comemorar na happy hour.

Como marcar pontos?

  • Marque 1 ponto sempre que alguém apontar um problema no processo e outra pessoa responder, “Mas aqui é assim que a gente faz.”
  • Marque 1 ponto sempre que, ao discutir um ponto controverso, alguém disser: “Isso já foi decidido naquela reunião há x anos atrás. A gente devia começar a registrar essas coisa em ata...”
  • Marque 1 ponto sempre que alguém disser “Isso aqui estava um caos quando eu peguei: eu é que dei jeito. Agora estou te entregando tudo redondinho.” #sqn
  • Marque 1 ponto sempre que você mandar um e-mail perguntando três coisas e a pessoa responder duas das suas perguntas, ignorando a terceira.
  • Marque 1 ponto sempre que você mandar um e-mail perguntando, “Isso ou aquilo?” e a pessoa responder "Sim".
  • Marque 1 ponto sempre que alguém se referir a um manual como Manuel. Marque 1 ponto adicional se a pessoa rir da própria piada.
  • No hora do bolão da Mega-Sena, marque 1 ponto se alguém tiver um “método”, uma planilha ou um aplicativo que aumenta as chances de ganhar.
  • Marque 1 ponto sempre que alguém passar na sua mesa pra falar com você carregando um copo de café e, quando for embora, deixar o copo sujo em cima da sua mesa.
  • Pra quem trabalha em baia que faz divisa com o corredor. Marque 1 ponto sempre que alguém parar ao lado da sua baia para conversar com outra pessoa e se apoiar na divisória, ficando com o cotovelo dentro da sua baia. Marque 1 ponto adicional se a pessoa derrubar alguma coisa que estava presa na divisória (mapas, diagramas, post its etc).
  • Marque 1 ponto sempre que alguém reclamar que está ficando doente por causa do ar condicionado. Marque 1 ponto adicional se a pessoa vier trabalhar de botas, luvas e cachecol.
  • Marque 1 ponto sempre que alguém disser que “Quem está com frio pode colocar um casaco; eu é que não posso tirar a roupa.”
  • Marque 2 pontos adicionais se alguém ajustar a temperatura do ar condicionado e depois esconder o controle remoto.
  • Marque 1 ponto sempre que alguém fizer um DR pelo telefone, alto o bastante para que todos à sua volta escutem. Marque 1 ponto adicional se o DR for com o(a) ex.


Isso não vai ajudar a resolver nenhum dos problemas da empresa, mas, já que você está cercado por idiotas, não custa pelo menos se divertir um pouco com a situação.

Em breve:

  • Bingo Metroviário (porque os idiotas também precisam se locomover)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Gerente, Não Faça Isso

Hoje estou inaugurando um novo marcador aqui no blog: "Gerente, Não Faça Isso". E, quando eu digo gerente, quero dizer gerente de projeto, coordenador, gestor do contrato, líder de produto, supervisor, enfim, qualquer cargo em que se presume que o indivíduo irá assumir a responsabilidade de liderar a equipe rumo a um objetivo, seja ele a entrega de um projeto ou o cumprimento das metas mensais de vendas.

Enquanto algumas pessoas (que aqui eu vou chamar sempre de gerentes para simplificar) desempenham essa função de forma competente e digna e ganham o respeito daqueles que gerenciam, há também outros tristes arremedos de gerente que envergonham a categoria. E há também aqueles que não são 100% do primeiro caso nem 100% do segundo, mas que de vez em quando pisam na bola com os dois pés e depois ainda sapateiam em cima dela.

Hum... Gol?
© Singburi | Dreamstime.com - Old Deflated Soccer Ball, Old Deflated Football On The Green Grass Photo

Uma vez eu fui a uma reunião na empresa do cliente, acompanhando o gerente do projeto. A reunião era sobre dois projetos nos quais eu estava atuando como analista de negócio, mas a fase de levantamento de requisitos de ambos já estava encerrada. Não me lembro mais em que fase o primeiro projeto estava, mas o segundo já estava terminando a fase de testes. Também não me lembro dos detalhes do que foi dito na reunião porque isso foi há alguns anos atrás, mas me lembro que o segundo projeto estava atrasado e o gerente do projeto estava sendo questionado por isso. A data de entrega do projeto estava prevista para dali a poucos dias e, pelo atraso com que tinham sido alcançados os marcos anteriores do projeto, já estava claro para todos que a entrega final também ia atrasar.

E aí visualizem a cena. A sala de reunião toda elegante no prédio chiquerésimo do cliente empresa privada cheio da grana, sexta maior instituição na sua área de atuação no país. Do lado de lá, dois ou três clientes colocando pressão. Do lado de cá, eu e o arquiteto de software quietinhos, só assistindo enquanto o gerente do projeto, provavelmente já suando dentro do seu terno apesar do ar condicionado, discorre sobre variáveis, incógnitas e imprevistos.

Um dos clientes pergunta então ao gerente do projeto qual é a data oficial, prevista no cronograma, para a entrega final do projeto. E ele, na lata: "Não sei."

Eu vou repetir para ter certeza de que todo mundo entendeu. Ele não diz: "Peraí, deixa eu consultar o meu notebook / tablet / celular / agenda / versão impressa do cronograma / recibo da farmácia no verso do qual eu anotei essa informação antes de vir pra reunião". Ele não diz: "Aquela data já foi pro vinagre, mesmo: eu vou te dizer a nova data de entrega prevista no cronograma replanejado". Ele não diz: "Nossa, me deu um branco agora! Que coisa, eu tinha essa informação na ponta da língua." Ele diz: "Não sei." E ainda completa: "Pra te dar essa informação exata eu teria que consultar o meu computador, lá na empresa," fazendo aquela cara de que esquisito é o cliente querer saber a data exata assim, de pronto.

O termo "vergonha alheia" ainda não tinha se tornado tão popular naquela época, mas descreve com perfeição o que eu senti naquele momento. A reunião era exclusivamente sobre isso: sobre a entrega do projeto. Que o gerente do projeto não sabia quando ia ser, nem achou que seria relevante abrir o cronograma e conferir essa informação antes de ir para a reunião.

Gerente, não faça isso. Pelo menos, não em reunião na qual eu estou presente.

sábado, 13 de setembro de 2014

Cláudia Wanderléia e Michele Letícia – Uma Homenagem

Há alguns anos atrás, eu trabalhava em uma empresa em que o pessoal da limpeza era... pouco entusiasmado. É, vamos dizer assim: pouco entusiasmado.

"O que? Aquela sujeirinha ali? Que bobagem, mal se nota!"
(Image courtesy of zole4 at FreeDigitalPhotos.net)

Um belo dia, todos no escritório receberam por e-mail o aviso de que naquele fim de semana seria feita a detetização do local, com as instruções de sempre: deixar as gavetas destrancadas, levar para casa objetos de uso pessoal etc.

Na segunda-feira de manhã, ao chegar para o trabalho, o que é que eu encontro na baia que dividia com outras duas analistas? Uma barata daquelas enormes, cascudas. Ou melhor, o cadáver da barata, de pernas pro ar no chão da baia. Bem, pensamos nós, a barata deve ter rastejado pra fora do seu esconderijo depois que o pessoal da limpeza passou hoje de manhã, envenenada mas ainda viva, e veio morrer bem aqui no meio da nossa baia. Com três mulheres na baia, claro que nenhuma de nós chegou nem perto da barata e deixamos para o pessoal da limpeza recolher no dia seguinte.

Só que o dia seguinte chegou e a barata ainda estava ali. Assim como ainda estava dois dias depois, e depois, e... Infelizmente, não me lembro quantos dias exatamente a barata passou ali, mas foi tempo suficiente para que se considerasse a ideia de solicitar a confecção de um crachá para a pobre que, ali, anônima, não tinha quem lhe reclamasse o corpo nem providenciasse um enterro digno. E, assim foi que, mesmo sem crachá, a barata foi promovida da sua condição de indigente e passou a ser carinhosamente chamada de Cláudia Wanderléia.

Cláudia Wanderléia já era funcionária póstuma de uma agência governamental há alguns dias quando, duas baias à esquerda, apareceu Michele Letícia. Ao contrário de Cláudia, Michele chegou lá viva, talvez com o intuito de prestar suas homenagens à colega falecida, mas cometeu o erro fatal de dar as caras em uma baia cujos ocupantes eram, em sua maioria, homens e, portanto, menos propensos a fugir de barata. E assim terminou a curta carreira de Michele Letícia no funcionalismo público, morta na flor da idade e desovada sem a menor cerimônia.

Enquanto isso, indiferente a toda essa confusão, Cláudia Wanderléia permanecia lá na minha baia, intocada pelo pessoal da limpeza que, acredito eu, varria o chão em torno da falecida sempre desviando respeitosamente dela para não perturbar o seu descanso eterno.

"A senhora me desculpe, viu, Dona Cláudia? Se eu estiver incomodando, é só avisar."
(Image courtesy of aopsan at FreeDigitalPhotos.net)

Até que um dia, ao chegar no trabalho, percebi que havia alguma coisa diferente. Faltava alguma coisa. Olhei em volta, procurei, e... Pois é: Cláudia Wanderléia se fora. Não sei se o pessoal da limpeza finalmente a levou ou se os parentes enlutados vieram buscar o corpo, mas o fato é que Cláudia Wanderléia partiu tão discretamente quanto chegou.

Nessa mesma época, a impressora que ficava na minha baia começou a se comportar de forma mais errática do que o habitual (ou seja, errática PRA CARAMBA). Várias hipóteses foram levantadas, mas até hoje não temos certeza de qual das duas falecidas passou um tempo assombrando a impressora. Eu, pessoalmente, acredito que era o fantasma de Michele Letícia, pois foi a que morreu de morte violenta, mas isso é só um palpite.

"Não notei nada fora do normal, não. Por que?"
(Image courtesy of zirconicusso at FreeDigitalPhotos.net)

Por que eu estou contando tudo isso agora? Por que, no início da semana, chegando em casa do trabalho, ao sair do elevador me deparei com um objeto inusitado no parapeito da escada. Parece a tampa de um squeeze.


Vi e não dei muita confiança: se tem dono, daqui a pouco ele busca e, se não tem, amanhã o zelador joga fora. Foi o que eu pensei no início da semana. Os dias se passaram, porém, sem que nada acontecesse. Na sexta cheguei do trabalho e encontrei ainda a mesma tampa, no mesmo lugar.

A conclusão é óbvia, né?

GENTE, CLÁUDIA WANDERLÉIA REENCARNOU COMO TAMPA DE SQUEEZE!!!!!

sábado, 30 de agosto de 2014

Orgulho de Ser Ovelha

Há alguns dias atrás, uma amiga muito querida postou no Facebook uma foto dela e da sua equipe de trabalho. Acompanhando a foto, tirada às nove horas da manhã, um texto explicando que ela estava trabalhando há 24 horas ininterruptas e que já estava acordada há 30 horas, tendo dormido apenas duas horas na "noite" (dá pra chamar de noite?) anterior. O resto da equipe, aparentemente, estava no mesmo ritmo. Ainda assim, estavam todos sorridentes na foto, marcada com o hashtag #sóosfortes. E os comentários seguiam no mesmo tom: percebia-se o orgulho de ser "forte", "caveira", "guerreiro", e a solidariedade dos amigos que já tinham passado por perrengues semelhantes.

Longe de mim desmerecer a força de vontade e o espírito de luta de quem vira a noite trabalhando no projeto, com ou sem pizza, pausa pra foto no Facebook e apoio do marido/esposa que está em casa dando a janta e o banho das crianças. Só com muita garra mesmo. O que me preocupa é essa tendência de achar que isso é normal. Que faz parte. Os fortes aguentam o tranco; os fracos ficam de mimimi e querem ir para a casa no fim do expediente.

É a terrível confusão que se faz do comum com o normal: comum é uma coisa e normal é outra, e é fundamental não se esquecer disso. Se acontece com frequência, é comum; nem por isso, no entanto, se torna normal. Tratar como normal uma falha grotesca no processo como a que permite que projetos atrasem a ponto de a equipe precisar regularmente trabalhar além do horário, seja no escritório ou em casa, é sancionar a conduta irresponsável de quem assume prazos sem avaliar se é capaz de cumpri-los ou, pior, sabendo perfeitamente bem que não é capaz de cumpri-los sem esse tipo de sacrifício. De quem muda a especificação no meio do caminho e, "inocentemente", acha que isso não afeta o prazo final. E de quem permite que isso aconteça.

E assim a hora extra, que deveria ser a exceção, a solução extraordinária para o contratempo imprevisto, se torna a norma, o comprometimento, o "vestir a camisa". Errados são aqueles pais e mães que teimam em buscar os filhos na escola, maridos e esposas que insistem em jantar juntos, estudantes que se recusam a matar aula, aquela gente egoísta que enche suas noites e seus fins de semana com todo o tipo de atividade não ligada ao trabalho: academia, cinema, teatro, cabeleireiro, supermercado, reunião de condomínio, praia, viagem, futebol.

Quando uma pessoa está em uma situação que não lhe permite fazer pé firme e dizer: "Eu avisei desde o início que não tinha como ficar pronto em três meses; ninguém mandou você se comprometer com o cliente", encarar a situação como um desafio e não como uma atitude desrespeitosa da parte de quem está cobrando o cumprimento do prazo impossível é uma forma de defesa até bastante compreensível. Afinal, se é inevitável, não é melhor encarar a situação de forma positiva? O problema é que esse tipo de pensamento está perigosamente próximo do pensamento da mulher cujo marido não é violento e perigoso, "ele é só muito passional". E essa mulher, como diz uma outra amiga minha, de forma um pouco cínica mas nem por isso menos realista, está a um passo de tornar-se estatística da Lei Maria da Penha.

É muito saudável que os membros da equipe façam piada, riam da própria desgraça e apoiem-se uns aos outros quando estão passando por uma situação difícil. Mas deixa de ser saudável se eles se convencem de que a vida é isso. Que "nessa área em que trabalhamos" é assim mesmo. É "assim mesmo" médico dar plantão. É "assim mesmo" militar ficar de serviço. Mas não é "assim mesmo" nenhum profissional, de qualquer área, trabalhar fora do horário contratado, sem as ferramentas adequadas ou forçado a assumir responsabilidades que não são suas. Por mais comum que seja, não é normal.

Em duas entrevistas de emprego, eu escutei a pergunta "Você tem disponibilidade para fazer hora extra?". Nas duas dei a mesma resposta. Tenho disponibilidade, sim, para fazer hora extra se acontecer algum imprevisto e o prazo for crítico. Se alguém da equipe ficar doente, se o servidor ficar fora do ar na véspera da entrega, se nós, enquanto equipe, subestimarmos a complexidade do projeto e o esforço necessário, conte comigo para ficar até a hora que precisar ou para vir no fim de semana. Mas, se o prazo estimado for x e alguém entregar um cronograma de x - 1 para ganhar a concorrência ou fazer média com a chefia, já contando com a minha hora extra, pode esquecer. Em um dos casos fiquei com o emprego; no outro, não. Se pudesse voltar no tempo, minha resposta permaneceria a mesma.

Encerro este post com uma fábula de Monteiro Lobato que precede aquela historinha de porco (comprometimento) x galinha (envolvimento) que o pessoal adora contar nos workshops motivacionais.

As Razões do Porco

Lá ia para o mercado a carroça dum sitiante. Dentro, três animais: uma cabra, um carneiro e um leitão. Cabra e carneiro seguiam em silêncio, muito sossegados da vida. Já o porquinho, não. Inquieto, a suspirar, volta e meia espiava pelas frestas, cheio de apreensões. E quando avistou o mercado não se conteve: abriu a boca e berrou como se estivessem a sangrá-lo no coração.

— Para que isso? — disse a cabra.  Também eu vou para a feira e no entanto a ninguém incomodo com esse berreiro descompassado.

— Também assim penso — ajuntou o carneiro. — Vamos ser vendidos, quer dizer, vamos mudar de dono. É tolice lamuriar dessa maneira por coisa tão sem importância.

O porquinho berrou ainda mais, e por fim explicou-se:

— É verdade, vamos ser vendidos os três. Mas tu, cabra, teu destino é dar leite; e tu, carneiro, tua função é produzir lã. Compreendo que seja indiferente para ambos que dês leite ou lã a este ou àquele. Mas eu, eu só presto para ser comido, e ir para o mercado não me é apenas mudar de dono mas mudar de mundo. Vou para o açougue, coim coim! Como então quereis que me conforme com a sorte e vá nesse sossego de cabra e nessa indiferença de carneiro? Tivésseis o meu destino e havíeis de berrar ainda mais forte…

E continuou a botar a boca no mundo.

Lembre-se disso quando lhe disserem que o seu esforço e comprometimento estão sendo reconhecidos e serão recompensados.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Eu Acho Que Vi um Gatinho

Como já se passou bastante tempo, acho que já dá pra contar a história do gatinho sem queimar o filme de ninguém. Esta é uma história 100% verdadeira, que aconteceu em uma instituição na qual eu trabalhei, cujo nome será omitido para preservar os envolvidos.

Nesta época eu trabalhava para uma empresa de desenvolvimento de software. Meu trabalho, porém, não era executado dentro da empresa, e sim dentro da empresa do cliente. E que conste, para dar o clima da história, que a empresa do cliente é uma instituição conhecida por sua formalidade e senso de hierarquia.

Eu tinha um mês de casa quando o episódio do gatinho ocorreu. Eu e outra colega (essa, coitada, admitida há uma semana, apenas) tínhamos acabado de escovar os dentes na volta do almoço e nos preparávamos para voltar para nossa sala quando, ao abrirmos a porta do banheiro, eis que entrou correndo uma outra colega de trabalho carregando nos braços alguma coisa embrulhada em um casaco.

"Fecha a porta, fecha a porta!" ela pediu com urgência e nós, surpresas, obedecemos.

Só então ela revelou que, aconchegado nas dobras do casaco, tinha contrabandeado para dentro da empresa do cliente... um gatinho. O bichinho, coitado, parecia ainda mais perplexo do que nós duas: nem miava, de tão atarantado.

Nossa colega explicou, então, que tinha encontrado o gatinho quando voltava, ela própria, do almoço, escondido no estacionamento e em vias de ser atropelado por um carro que saía. Resgatou o bichinho, mas não podia levá-lo para casa ainda, pois tinha uma reunião dali a pouco. A solução mais lógica que lhe ocorreu, então, foi aquela: levar um gato para dentro da empresa do cliente e deixá-lo escondido em algum lugar até o fim da reunião, quando então ela pediria licença para sair mais cedo e iria para casa com ele.

Até aqui, tudo bem, né? Plano sólido, à prova de falhas.

Começaram então as providências para acomodar o gatinho enquanto a reunião não terminasse. Uma terceira colega de trabalho, enviada à procura de uma caixa, voltou com uma cesta de lixo vazia, dessas pequenas que ficam ao lado da mesa do escritório. O gatinho foi devidamente instalado lá e a cesta, devolvida à sua localização original, ao lado da mesa da nossa colega resgatadora de gatinhos. Esta, por sua vez, colocou o seu manto de invisibilidade casaco dobrado em cima da cesta de lixo, meio que tampando a cesta para que quem passasse por lá não notasse o bichinho lá dentro. E aí virou-se para aquela primeira colega de trabalho, a tal que só tinha uma semana de casa, e colocou na mão da pobre um pacote de ração para gatos com a recomendação de, caso o gatinho miasse, dar-lhe um pouco de ração para acalmá-lo.

Todo mundo está visualizando a cena? A pessoa tirando um pacote de ração para gatos de dentro da bolsa no meio do expediente? Pois é.

Eu questionei: "Mas você não disse que encontrou o gatinho na volta do almoço, já dentro do estacionamento da empresa?"

E a resposta dela: "Eu sempre carrego um pacote de ração comigo, para alguma eventualidade." E eu aqui, me achando muito prevenida porque sempre tenho um alicate de cutícula na bolsa.

Enfim, lá se foi ela para a tal reunião. Na sala, ficamos: eu, a colega encarregada de alimentar o gato, os programadores, que não sabiam de nada, e pelo menos uma meia dúzia de clientes. E aqui vocês precisam entender que aquela sala tinha dias em que era um verdadeiro mercado persa: uma falação, telefone tocando, um tal de gente indo de lá pra cá, arrastando cadeira, batendo porta, que só com fone de ouvido pra conseguir se concentrar no trabalho. Neste dia, porém, parece que todo mundo estava se sentindo super zen: a sala estava tão sossegada que dava para ouvir até o tec-tec dos teclados.

Até o primeiro miado. Baixinho, né, porque o gatinho era realmente bem pequenininho e estava, muito justificadamente, ressabiado: foi mais uma tentativa de miado, mas, na sala silenciosa, bastou para fazer algumas cabeças se levantarem. Quando o ruído não se repetiu e ninguém enxergou nada de anormal, no entanto, quem tinha levantado a cabeça voltou novamente a atenção para o trabalho e o sossego voltou.

Até o segundo miado. Mais alto, agora, porque o gatinho já devia estar começando a ficar aflito. Novamente, algumas pessoas ergueram a cabeça, outras olharam em volta. Mais tarde me disseram que, do lado do cliente (a maioria deles ficava meio afastada do resto de nós), uma pessoa comentou com outra, achando que fosse brincadeira dos programadores: "Eles imitam direitinho, né?".

A essa altura, a colega que tinha ficado encarregada (leia-se: tinha ficado sem jeito de recusar) da ração do gato levantou-se, muito sem graça, atravessou a sala e colocou um pouquinho de ração na cesta de lixo junto com o gatinho da forma mais discreta possível.

O problema é que despejar o conteúdo de um pacote de ração para gatos em uma cesta de lixo no meio de um escritório cheio de gente é uma coisa que, por definição, não é discreta. Na mesa bem ao lado da nossa se sentava justamente uma funcionária do cliente que, observando aquela cena, não teve como não perguntar o que ela estava fazendo. E a minha colega, que não tinha tido tempo de pensar uma mentira convincente ("É uma tradição minha, uma simpatia pro projeto ser bem-sucedido."), contou toda a história do resgate do gatinho.

Agora, ponham-se no lugar dessa pobre alma, cujo cargo situava-se na base da cadeia alimentar naquela sala. Sendo, ao contrário dos demais envolvidos, um ser humano são, ela sabia que era só uma questão de tempo até que toda a sala soubesse da presença do felino clandestino. E que, caso ela não se adiantasse e comunicasse o fato a alguém, seria cúmplice involuntária daquela trapalhada.

Assim, ela se levantou, foi até a mesa do superior mais próximo e passou o pepino adiante. Superior este que, obviamente, achou que ela estivesse de brincadeira, até que ela o levou até a cesta de lixo para ver com seus próprios olhos. Esta pessoa então deu meia-volta e buscou outra, que veio também com a mesma cara de incredulidade até espiar dentro da cesta e dar de cara com o gatinho que, a essa altura do campeonato, já devia achar que estava em um episódio de "Além da Imaginação" felino. Quando já tinha uns quatro parados em volta da cesta de lixo, todos olhando para dentro da cesta e coçando a cabeça, algum deles resolveu que aquilo decididamente não estava na descrição do seu cargo e foi buscar o chefe.

Infelizmente, eu não sei o que se passou quando o chefe deles marchou sala de reunião adentro e tirou o meu chefe de lá para prestar contas do episódio. Só sei que a colega resgatadora de gatinhos foi mandada para casa com seu amiguinho peludo e, pasmem vocês, não foi demitida, o que só prova que nessa área de TI só tem doido.

Menos eu, claro. Eu sou normal.

"Young cat" by User:Petra15 - Own work. Licensed under Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 via Wikimedia Commons

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Gente Que Faz (Média)

Eu não sei fazer média com as pessoas e, para ser franca, não tenho vontade de aprender.

Um dos motivos é, sem dúvida, o fato de que sofro de inabilidade social aguda. Não sei se é uma má-formação congênita da minha personalidade ou se foi algum vírus ao qual fui exposta na infância junto com o da catapora e o da caxumba: o fato é que o meu índice de MPM (Meter os Pés pelas Mãos) é altíssimo, muito acima do razoável.

O outro motivo de eu não saber fazer média são as tentativas dolorosamente óbvias de fazer média que eu testemunho todos os dias. Cada vez que eu presencio uma dessas cenas lamentáveis, a parte do meu cérebro que deveria ser responsável por fazer média diminui mais um pouco.

Pode parecer estranho uma analista de requisitos que não sabe fazer média, mas a verdade chocante é que a maioria dos clientes reage bastante bem a competência e respeito. Para quem não tem essas duas características nas doses necessárias, fazer média pode parecer uma boa alternativa, mas a pessoa tem que ser muito boa nisso para ser capaz de fazer média sem parecer que está fazendo média. E ser muito bom nisso significa, entre outras coisas, não se valer de nenhuma das seguintes técnicas:

Técnica: Amor à Primeira Vista

É uma maneira clássica de fazer média. Você foi apresentado à pessoa, trocaram meia dúzia de palavras e, na próxima vez que se vêem, você reage como se fosse seu melhor amigo que você não vê há anos.

Por que não é uma boa ideia?

Pra começo de conversa, há o fato óbvio de que a outra pessoa dificilmente vai ser idiota de acreditar que você, um quase desconhecido, está assim tão feliz por vê-la, o que quer dizer que essa estratégia só funciona com gente muito burra ou muito egocêntrica.

Outro risco inerente a essa estratégia é o fato de que, como vocês mal se conhecem, na hora H você pode esquecer alguma informação crucial como, por exemplo... o nome da pessoa. Sim, já vi isso acontecer mais de uma vez e foi horrível: o fazedor de média abrindo aquele sorrisão de comercial de pasta de dente e exclamando "Olha quem está aqui, o meu amigo..." AimeuDeusqualemesmoonomedele?

"E agora? Já estou prolongando esse abraço há 15 minutos e ainda não consegui lembrar do nome dela..."

Estratégia alternativa:

Preste atenção ao que a pessoa disser quando vocês se conhecerem e use essa informação para demonstrar um interesse simpático (e comedido) da próxima vez que se encontrarem. "E aí, foi tudo bem na prova?" "Como foi a viagem?" "Seu pé está melhor?". Dá um pouco mais de trabalho, porque você vai precisar efetivamente ouvir a pessoa, mas o resultado é melhor e a chance de passar vergonha é bem menor.

Técnica: O Político

Técnica bastante popular entre fazedores de média corporativos. Não sei por quê, mas só a vejo ser utilizada por homens.

O fazedor de média político chega no trabalho e vai de mesa em mesa cumprimentando um por um. Pelo nome. Com um aperto de mão (para os homens) ou um beijo (para as moças). Todo santo dia.

Variações dessa técnica incluem um beijo na mão acompanhado de um olhar profundo do tipo "este sou eu te seduzindo".

Por que não é uma boa ideia? 

Porque você esteve com essas pessoas há menos de 24 horas: você não teve tempo de sentir saudade delas. Você provavelmente nem pensou nelas nas 15 horas que passaram separados, até porque pelo menos umas 6 dessas 15 horas você passou dormindo.

Um bom-dia geral e um sorriso deixam todo mundo feliz sem interromper o trabalho de ninguém. Porque é basicamente só isso que o fazedor de média político consegue: fazer todo mundo parar o que está fazendo para dar atenção a ele.

Não tenho nada para acrescentar aqui, não: é só que esse foi um dos resultados da pesquisa por "shaking hands" e, gente, tem como não amar esta foto?
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Estratégia alternativa: 

Dê um bom-dia geral, bem animado se você for uma dessas pessoas felizes que acordam de bem com a vida. Se a sala é grande, pode ir repetindo a saudação por todas as baias pelas quais passar, mas não obrigue seus colegas a responder e, pelo amor de tudo o que é bom e justo no mundo, não reclame que o bom-dia deles foi muito desanimado. Você não é apresentador de programa de auditório nem recreador de festa infantil.

Pare para conversar com aqueles para quem você efetivamente tem algo a dizer mas, se eles estiverem com aquela cara de "preciso terminar isso para apresentar em uma reunião daqui a meia hora, me deixa em paz pelo amor de Deus", se manque e caia fora.

Uma grande vantagem dessa estratégia alternativa é que, caso você tenha se desentendido com um colega recentemente, ou se vocês simplesmente não se dão mesmo, você não precisa escolher entre ser abertamente hostil ao falar com tudo mundo e virar a cara para ele e ser escandalosamente falso ao dar um bom-dia carinhoso e pessoal pra quem sabe muito bem o que você pensa dele.

Técnica: Sou Seu Fã

Essa técnica é popular tanto com fazedores de média quanto com puxa-sacos. É importante fazer a distinção porque todo puxa-saco é fazedor de média, mas nem todo fazedor de média é puxa-saco.

A técnica consiste em enaltecer as qualidades, reais ou imaginárias, do outro, sempre que surge uma oportunidade. Ou mesmo que ela não surja: o importante é lembrar sempre o quanto ele é inteligente, íntegro, vital para o projeto, cidadão modelo, pai/mãe exemplar.

Por que não é uma boa ideia? 

Assim como no caso do "Amor à Primeira Vista", sempre haverá aqueles tão burros e/ou egocêntricos que acreditarão em qualquer coisa que massageie o seu ego. Com os demais, há que usar cautela com os elogios, até mesmo com os elogios sinceros. Por mais maravilhosa que uma pessoa seja, existe hora e local para dizer isso. E existe uma quantidade máxima de vezes que dá para fazer o mesmo elogio antes que o ouvinte tenha vontade de gritar: "Tá bom, já entendi!"

Isso é particularmente delicado quando você está pedindo alguma coisa à pessoa sendo elogiada. Não há maneira melhor de estragar um elogio do que emendar com um pedido de favor. Você está sendo tão sutil quanto uma criança escondida atrás da cortina com os pezinhos aparecendo. Tão sutil quanto e bem menos bonitinho.

"Eu sou o mestre dos disfarces! MUAHAHAHAHAHA!"
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Estratégia alternativa: 

Elogio é bom e todo mundo gosta. Elogie, elogie sempre. Mas espere a pessoa te dar motivo para elogiar. Seja específico. Ao invés de apresentar o novo membro da equipe como "O" cara que vai resolver todos os problemas, parabenize-o publicamente pelo contrato enorme que ele fechou, ou pelo sistema que ele entregou sem erro. Ao invés de dizer "você é uma mãe maravilhosa", diga que ficou impressionado com a forma com que ela lidou com determinada situação delicada. Quando você não consegue pensar em nenhum motivo concreto para elogiar, é um bom momento para repensar a ideia de fazer o elogio.

Fazer média: talvez você seja mesmo tão bom nisso quanto acha que é. Talvez ninguém nem perceba que você está só fazendo média. Talvez essas mesmas estratégias que eu citei funcionem direitinho com as pessoas com quem você faz média. É. Pode ser. Mas tenha em mente as palavras de Abraham Lincoln:
"Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo."
E lembre-se que, para aquelas pessoas a quem você não está enganando, você é só um marmanjo com uma panela na cabeça, dando risadinhas e se achando o máximo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Quatro Coisas Irritantes

Estou com vários posts pela metade e sem ânimo para terminar nenhum deles. Para não deixar o blog largado por muito tempo, e porque estou num estado de espírito particularmente ranzinza esses dias, segue uma lista de coisas que me irritam em maior ou menor grau.

Gente que diz "M"


Respeito quem fala palavrão (com moderação) e respeito mais ainda quem não fala. Mas acho uma coisa muito besta dizer coisas como "fazer M" e "isso está uma M". Das duas uma: ou bem a pessoa com quem você está falando não sabe qual é a palavra que você está substituindo por "M", e daí ela vai dizer "como assim, M?" e você vai ter que dizer a palavra pra ela entender, ou bem ela sabe e dá na mesma você dizer "M" ou a palavra com todas as letras, porque é isso que ela vai escutar. É como achar que é menos grosseiro mostrar o dedo médio pra alguém do que xingar a pessoa. Se você quer usar um termo mais educado e a única alternativa que lhe ocorre é "M", compre um dicionário com urgência. Para pesquisar outras maneiras de substituir a palavra que você não quer dizer, mas também para procurar o significado de "educado".

Casais que fazem DR em público



DR é uma coisa nem sempre agradável mas às vezes necessária. DR alheia é só desagradável. Incomoda quem está por perto, estressa o ambiente e expõe a intimidade do casal para pessoas que não estão nem um pouco interessadas. Um DR público não vai angariar a simpatia de ninguém, não importa com quanta eloquência (ou quão alto) você exponha os seus argumentos. Do ponto de vista do resto do restaurante, bar, ponto de ônibus ou seja lá onde for que você resolveu que o seu DR não podia esperar vocês estarem em algum lugar privado, só existem três vereditos possíveis:

(a) ele é um cavalo e se ela ainda não terminou deve estar muito desesperada pra casar
(b) ela é uma virago e se ele ainda não terminou é porque é covarde demais pra tomar uma atitude
(c) ambos

Geralmente, ambos.

Gente que conta calorias em voz alta


É sexta-feira, e o pessoal do trabalho está todo reunido no Outback para comemorar o aniversário de alguém. Até o chefe veio, portanto é certeza de almoço prolongado sem culpa. Pra dar início aos trabalhos, o garçom coloca sobre a mesa aquele prato maravilhoso de batata frita, bacon e queijo derretido: os rostos se iluminam, os garfos são erguidos de forma quase reverente... e alguém (geralmente a pessoa mais magra da mesa) solta a pérola: "Nossa, é uma verdadeira bomba de calorias! Vou ter que passar uma hora na academia só pra queimar isso tudo!"

Em um mundo ideal, o garçom imediatamente tiraria o garfo da mão dessa criatura, levaria a sua bebida e voltaria com um copo de água da bica e um prato com três folhas de alface e uma fatia de ricota: "Pronto, problema resolvido: pode comer sem culpa."

Eu acho que dieta é uma coisa muito pessoal. Cada um sabe onde lhe aperta o calo, quando é hora de seguir a dieta à risca e quando é hora de se permitir uma extravagância. E entendo também que tem gente que não faz dieta e pronto, e cai de boca na comida como se não houvesse amanhã. E acho que isso não é da conta de ninguém e que cada um sabe o que é melhor para si. Mas das duas, uma: ou você pede a sua salada e o seu suco sem açúcar e come feliz, com a sensação boa de dever cumprido, ou você come a batata frita com alegria e sem culpa, saboreando cada pedacinho de bacon e cada pingo de queijo derretido, e deixa pra pensar nas calorias quando estiver na academia.

Todo mundo sabe o que engorda e o que não engorda e ninguém precisa que você fique lembrando disso enquanto as pessoas estão tentando saborear a comida. Anunciar quantas calorias cada prato tem e quanto tempo você vai passar na esteira pra compensar não vai fazer você emagrecer mais rápido, mas vai fazer com que as pessoas parem de te chamar para almoçar.

Menção especial para as pessoas que pedem salada e ficam contando as calorias do prato alheio. Se você estiver no mesmo restaurante que eu e alguém na sua mesa fizer isso, pode bater sem medo que eu confirmo na delegacia que a pessoa estava armada e foi legítima defesa.

Gente que trabalha no Fantástico Mundo de Bob

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Já trabalhei em alguns lugares assim: logo na primeira semana (em alguns casos, já na entrevista de emprego) alguém faz aquele discurso de que ali é diferente dos outros lugares em que ele já trabalhou, onde ficava um querendo derrubar o outro e ninguém compartilhava o conhecimento. Ali, não: ali todos são muito unidos, o ambiente é maravilhoso, todos formam uma grande família e estão sempre prontos a ajudar uns aos outros.

Pra começo de conversa, eu já fico de pé atrás em qualquer situação em que ficam se esforçando demais para me convencer de que determinada pessoa ou instituição é a última Coca-Cola gelada no deserto. Particularmente neste caso da empresa maravilhosa onde todos trabalham por amor à camisa e ninguém nunca apunhalou ninguém pelas costas: em todo lugar tem gente que não vale nada, independente do que o comitê de boas vindas diga.

Já trabalhei em algumas empresas excelentes, com equipes maravilhosas, mas ninguém precisava ficar alardeando isso, porque era uma coisa que estava lá, no dia-a-dia da empresa, e todo mundo percebia.  As piores empresas em que trabalhei, aquelas com maior índice de mau-caratismo e RH mais omisso, foram justamente aquelas em que fizeram tanta questão de tentar me vender a ideia da grande família feliz.

Resultado é a melhor propaganda. Todo o resto é história pra boi dormir. Pronto, falei.

domingo, 10 de março de 2013

The One with the Joke

Os fãs de Friends certamente se lembram desse episódio. Alias, os fãs de Friends se lembram de todos os episódios, mas isso já é outro assunto. "The One with the Joke" é um episódio da sexta temporada de Friends em que Ross envia uma piada para a Playboy e ela é publicada. Mas quando ele, todo contente, mostra para os amigos um exemplar da revista com a piada publicada, Chandler protesta, dizendo que foi ele quem inventou a piada e a contou para Ross. A discussão se prolonga por todo o episódio sem que os dois cheguem a um consenso e só termina quando Monica diz aos dois que a piada, além de não ter a menor graça, é extremamente ofensiva, e os dois finalmente ficam sem graça e desistem de disputar sua autoria.

Eu tenho que admitir que entendo o motivo da disputa. Sei que parece uma criancice, uma vaidade besta se estressar por causa da autoria de uma piada, mas o fato é que, quando você faz uma piada, por mais boba que seja, e as pessoas riem, é uma sensação muito legal. E, tudo bem, ninguém espera conquistar fama e glória por um dito espirituoso, nem ser citado nominalmente cada vez que ele é repetido, mas escutar esse comentário ser precedido pela frase "É como eu sempre digo" é dose (caso real).

E assim, como o blog é meu e eu uso pro que eu quiser, segue uma piada que é minha, fui eu que inventei e entrei no Rage Builder, montei quadrinho a quadrinho e postei no Facebook. E, se você achou graça: de nada! Se não achou: desculpa, vou tentar fazer melhor da próxima vez. Mas fui eu que fiz.